Soberania alimentar europeia em risco, alerta líder francês
Soberania alimentar europeia virou tema central depois que o produtor e dirigente sindical francês Franck Sander afirmou que o bloco “perde capacidade de se sustentar” diante de custos elevados e da entrada de alimentos do Mercosul. Segundo ele, o acordo comercial que começa a valer provisoriamente em 1.º de maio amplia a diferença de competitividade e pressiona as margens de agricultores já sobrecarregados por exigências ambientais e sociais.
Regras diferentes, custos diferentes
Sander cultiva beterraba, milho, trigo, lúpulo e opera uma usina de biogás em 150 hectares na Alsácia, mas hoje passa mais tempo representando produtores na Copa-Cogeca, principal entidade agrícola da União Europeia. Ele lembra que a média das propriedades francesas não chega a 100 hectares, enquanto no Mercosul são comuns fazendas com milhares de hectares – escala que reduz custo por tonelada.
Outro ponto citado é a proibição de cerca de 70 princípios ativos que ainda são liberados na América do Sul. “Sem defensivos eficazes, nossa produtividade cai e parte da safra se perde”, diz. No caso da beterraba, fungos e pulgões derrubaram até 60 % da colheita em algumas áreas depois que neonicotinoides foram vetados em 2020.
Fiscalização insuficiente nas fronteiras
Para o dirigente, o reforço de inspeções proposto pela Comissão Europeia não basta. Apenas 1,5 % dos embarques agrícolas são analisados de fato, e grande parte das verificações é meramente documental. “Mesmo com tolerância zero para três moléculas, faltam laboratórios e gente para checar o restante”, afirma.
Sander argumenta que o problema não se limita a resíduos detectáveis. Métodos de produção diferentes e substâncias que não ficam no produto final escapam ao controle, mas afetam custos – e preços. “Basta um volume adicional pequeno para derrubar o mercado”, diz, citando a recente liberação de açúcar da Ucrânia como exemplo.
Impacto direto no bolso do produtor europeu
Embora existam cláusulas de salvaguarda, o francês prevê aumento gradual de importações de açúcar, etanol, carne bovina e de frango até atingir limites que correspondem à produção total de países como a França no caso do etanol. Ele ressalta que o auxílio médio da Política Agrícola Comum (PAC) – cerca de € 150 por hectare ao ano – serve para compensar faixas de proteção a rios, rotação obrigatória de culturas e limites de emissão de CO₂, não para cobrir o “gap” competitivo.
A divergência de escala aparece também na pecuária. Uma fazenda leiteira típica na França tem 60 vacas; projetos com 1.000 animais esbarram em barreiras ambientais e de bem-estar, enquanto estruturas desse porte são triviais no Brasil ou na Argentina.
Por que o alerta interessa ao agro brasileiro
Sander nega qualquer viés nacionalista. “Não é contra o Mercosul; fizemos o mesmo debate com a Ucrânia”, disse. O ponto é o equilíbrio. Para produtores brasileiros, o recado indica que o mercado europeu – estratégico para açúcar, carne e etanol – pode acionar salvaguardas ou adotar novas barreiras técnicas caso a pressão interna se agrave.
O tema preocupa inclusive órgãos internacionais. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) alerta que cadeias globais precisam de regras claras para garantir abastecimento sem comprometer a competitividade de pequenos e médios produtores.
Para quem acompanha custos, margem agrícola e acesso a mercados, a discussão mostra como mudanças regulatórias na Europa podem afetar preços pagos ao produtor brasileiro já nesta safra. Confira outras análises sobre competitividade e eficiência econômica no campo e veja como se preparar.
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