Inovação Agro

Mercados de carbono testam maturidade com Microsoft e agro

Mercados de carbono voltaram aos holofotes depois que veículos internacionais noticiaram uma possível suspensão temporária das compras de remoção de carbono pela Microsoft, hoje responsável por cerca de 90 % das aquisições globais. O boato, negado pela empresa, expôs de novo dúvidas sobre a integridade dos créditos e, ao mesmo tempo, abriu espaço para discutir oportunidades de receita e gestão de risco para agricultores que já enxergam nesse mercado um complemento financeiro.

Rumor com Microsoft reacende desconfiança e revela gargalos

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Em e-mail ao AgFunderNews, a diretora global de sustentabilidade da Microsoft, Melanie Nakagawa, garantiu que o programa continua ativo, mas admitiu “ajustes de ritmo ou volume” na compra de créditos. A simples possibilidade de recuo do maior comprador do planeta foi suficiente para ressuscitar críticas antigas: verificações frágeis, dupla contagem, falta de adicionalidade e preços irrealmente baixos, muitas vezes na casa de US$ 2 a US$ 3 por tonelada.

Estudo publicado em 2025 pelo pesquisador Joseph Romm classificou tais problemas como “intratáveis” se não houver mudanças estruturais. A investigação do The Guardian contra projetos florestais da Verra em 2023 mostrou ao público geral como créditos podem ser superestimados quando não há ameaça real de desmatamento. Para Romm, “é um mercado fácil de manipular” e que precisaria de controles semelhantes aos do sistema financeiro.

Sinais de avanço: Indigo, CCP e padrão de qualidade mais alto

Apesar do ceticismo, executivos do agro enxergam sinais de maturidade. A Indigo Ag já firmou três contratos de remoção com a Microsoft — o mais recente, anunciado em janeiro, prevê a entrega de 2,85 milhões de créditos ao longo de 12 anos. O acordo nasceu sob os Core Carbon Principles (CCP), selo criado em 2021 pelo Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM) e hoje considerado “padrão ouro” do setor. No fim de 2025, os créditos de solo da Indigo foram os primeiros agrícolas a receber a certificação.

Para o vice-presidente de serviços de sustentabilidade da companhia, A. J. Kumar, o rótulo CCP oferece ao produtor rural “confiança de que o crédito é real, durável e valorizado”. Essa elevação da régua também faz com que metodologias mais antigas se tornem inelegíveis, como reconhece Simon Haldrup, fundador da plataforma europeia Agreena. Segundo ele, a remuneração ao agricultor passa a depender de medições “certificáveis” de práticas como plantio de cobertura, redução de revolvimento de solo e uso de adubo orgânico — atividades que geram créditos vendidos com taxa de corretagem de 15 %.

Pesquisadores da Embrapa corroboram que boas práticas conservacionistas elevam o sequestro de carbono no solo e podem ser monitoradas com sensores e análises laboratoriais, ampliando a confiabilidade dos projetos.

Insetting ganha força e pode destravar renda no campo

Outra vertente que avança é o insetting, quando a empresa investe para capturar carbono dentro da própria cadeia. A alemã Klim, que conta com aporte do fundo AgFunder, ajuda indústrias alimentícias a financiar agricultura regenerativa em fazendas fornecedoras, atacando emissões de Escopo 3 e reduzindo riscos de abastecimento. Para o CEO Robert Gerlach, “o caso financeiro é mais forte porque melhora o resultado operacional da companhia enquanto reduz emissões”.

O modelo agrada agricultores por prever contratos de longo prazo, condição considerada essencial para garantir permanência do carbono estocado e estabilidade de receita. Já varejistas como Amfora, que trabalha com azeite regenerativo, preferem ficar fora do mercado voluntário tradicional: segundo o fundador Eurof Uppington, a remuneração agregaria apenas 2 % ao preço do produto e “facilitaria que grandes poluidores mantenham a emissão em outro lugar”.

O que observar antes de aderir aos créditos de carbono

Para quem avalia ingressar no segmento, especialistas apontam quatro pontos críticos:

  • Adicionalidade: comprovar que a prática ou o projeto não ocorreria sem o recurso do crédito.
  • Verificação independente: optar por metodologias reconhecidas, como CCP.
  • Permanência: contratos superiores a 10 anos reduzem o risco de reversão de estoque.
  • Preço justo: analisar custos de implementação e taxa da plataforma para garantir retorno.

Na prática, isso significa planejamento agronômico integrado, mensuração constante e cuidado com ofertas “fáceis” demais. O detalhe que mais chama atenção: a tendência de migração para projetos mais robustos sinaliza valorização dos créditos de solo, abrindo janela para quem já adota manejo conservacionista.

Mercados de carbono seguem em fase de ajuste, mas as regras mais rígidas e o foco em resultados mensuráveis indicam espaço para produtores que buscam diversificar receita com sustentabilidade. Para continuar acompanhado as oportunidades de rentabilidade e eficiência no campo, visite nossa editoria de lavoura digital e econômica.

Crédito da imagem: Agfundernews Fonte: Agfundernews

Francisco devruk

Francisco

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