Financiamento de captura de carbono ganha modelo com Chestnut Carbon
Financiamento de captura de carbono ganhou um caso de referência após a Chestnut Carbon conseguir US$ 210 milhões em crédito bancário para plantar florestas e vender créditos de carbono a grandes empresas. O movimento cria um roteiro prático para produtores, investidores e gestores que buscam viabilizar projetos similares com menor custo de capital.
Contrato robusto com a Microsoft abriu as portas para o banco
Fundada em 2022 pela gestora Kimmeridge, a norte-americana Chestnut Carbon comprou 70 mil acres (cerca de 28,3 mil ha) de terras marginais no sudeste dos EUA e já plantou 47 milhões de árvores. O passo decisivo veio em 2025, quando a companhia assinou com a Microsoft um acordo de 25 anos para restaurar 60 mil acres e entregar 7,44 milhões de toneladas de remoção de CO₂. O contrato tem estrutura semelhante a um “power purchase agreement” do setor elétrico, oferecendo:
- Prazo longo (25 anos),
- Volume claramente definido,
- Contraparte de alta solidez financeira.
Com esses elementos em mãos, a empresa levou a proposta à JP Morgan, que liderou um project finance de US$ 210 milhões em parceria com Bank of Montreal, East West Bank, Société Générale e Standard Chartered. O empréstimo cobre sete anos de “construção” — aqui, compra de terra, plantio e crescimento das árvores — e é garantido pelo próprio contrato de créditos de carbono e pelas propriedades rurais.
Terra própria reduz risco e facilita garantias reais
Ao optar por comprar as áreas em vez de arrendar, a Chestnut Carbon criou lastro tangível para os credores. Hoje a companhia soma mais de 90 mil acres distribuídos em nove Estados, o que dilui riscos climáticos como incêndios ou furacões. Além disso, concentra as operações no sudeste do país, região com crescimento mais rápido de mudas e menor histórico de desastres florestais que o noroeste americano.
Na prática, a posse da terra traz três vantagens:
- Serve de colateral direto para o banco,
- Confere credibilidade à promessa de “permanência” dos créditos,
- Permite diversificar espécies nativas conforme solo e salinidade, fortalecendo o ecossistema e reduzindo perda de biomassa.
Custos mais baixos atraem capital e viabilizam escala
Segundo o CFO Greg Adams, depender apenas de capital de risco limitaria a expansão do setor. O project finance corta o custo médio do dinheiro, melhora o retorno para os acionistas e, sobretudo, sinaliza que projetos baseados em natureza podem ser “bancáveis” como usinas de energia ou minas.
O ponto que mais chama atenção é a possibilidade de reproduzir o modelo em outras regiões, ajustando variáveis como prazo de crescimento das árvores, espécie plantada e legislação fundiária. Para quem opera no agro brasileiro, onde a oferta de terras disponíveis e a capacidade de sequestro de carbono são grandes, o case indica um caminho para transformar áreas degradadas em ativos rentáveis — desde que contratos de longo prazo com compradores confiáveis sustentem a engenharia financeira.
Vale lembrar que iniciativas desse tipo podem gerar receita adicional ao produtor ao mesmo tempo em que contribuem para metas corporativas de net zero. A Embrapa, por exemplo, já destaca o potencial do mercado voluntário de carbono para propriedades rurais brasileiras (confira estudo técnico).
Próximos passos e espaço de mercado
A estimativa da Chestnut Carbon é que existam 11 milhões de acres de pastagens marginais apenas no sudeste dos EUA. Com 90 mil acres sob gestão, a empresa ainda “arranhou a superfície”, nas palavras de Adams. Para os bancos, a dispersão em mais de 130 parcelas independentes — usadas no megacontrato com a Microsoft — também dilui riscos naturais e operacionais.
Especialistas enxergam o acordo como um divisor de águas: se repetir o formato virar rotina, o crédito de carbono deixará de ser nicho especulativo e passará a disputar espaço em carteiras tradicionais de financiamento rural e de infraestrutura verde.
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Crédito da imagem: Agfundernews Fonte: Agfundernews
