Caminho Verde Brasil: ajustes pedem inclusão e clareza
Caminho Verde Brasil avança com a liberação de R$ 30 bilhões para recuperar pastagens degradadas, mas produtores e indústrias cobram regras mais claras, garantia de acesso aos pequenos e monitoramento de carbono para atrair investidores.
Primeiros recursos e meta de 1,3 milhão de hectares em 2024
Lançado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 2023, o programa pretende revitalizar até 40 milhões de hectares em dez anos. Nesta primeira safra de operações, os R$ 30 bilhões garantidos pelo Tesouro, via Eco Invest Brasil, deverão financiar, a juros reduzidos, a conversão de 1,3 milhão de hectares improdutivos em áreas para pecuária e lavouras mais eficientes.
Na prática, o dinheiro chegará aos produtores por meio de bancos públicos e privados, abrindo margem para renegociar dívidas, contratar assistência técnica e investir em insumos voltados à recuperação de solo. Para o gestor rural, isso significa crédito mais barato justamente no momento em que custos de reposição e adubação seguem pressionando a margem da atividade.
MBPS elogia conceito, mas aponta lacunas operacionais
A Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável (MBPS), que reúne mais de 60 organizações do setor, publicou hoje (17/4) um relatório com recomendações para tornar a política mais efetiva. O documento reconhece avanços como a ênfase em pecuária sem desmatamento e o alinhamento às metas climáticas, porém destaca três gargalos:
- Definições técnicas incompletas – faltam critérios objetivos sobre o que caracteriza uma “pastagem degradada” e quais práticas contam como sustentáveis, ampliando o risco de interpretações divergentes.
- Inclusão de pequenos e médios – sem critérios específicos, o acesso ao crédito tende a ficar concentrado em grandes fazendas, limitando o alcance social do programa.
- Capacidade de assistência técnica – oferta reduzida de consultores e insumos pode atrasar a escala pretendida.
Segundo a presidente da MBPS, Ana Doralina Menezes, “é preciso garantir participação equilibrada na ponta” e oferecer manuais simplificados para acelerar a adesão.
Carbono no solo e sinergia com Plano ABC+ entram na agenda
Outro ponto crítico, de acordo com a MBPS, é o reconhecimento oficial das remoções de carbono no solo. Sem esse selo, investidores privados ficam reticentes em financiar projetos de insetting ou geração de créditos de carbono. A entidade defende a integração do Caminho Verde com o Plano ABC+, política federal para agricultura de baixo carbono, a fim de unificar métricas e evitar sobreposição de burocracias.
Nos próximos meses, a MBPS vai elaborar um guia técnico colaborativo para produtores, instituições financeiras e consultores. A ideia é traduzir exigências, criar checklists de validação de resultados e, principalmente, detalhar indicadores de solo, biodiversidade e produtividade que o governo usará para auditar os projetos.
Para o produtor que pensa em aderir, o detalhe mais relevante é antecipar o diagnóstico da área: mapear nível de degradação, definir meta realista de recuperação e planejar o fluxo de caixa considerando o período de resposta do pasto, que costuma variar de 18 a 36 meses.
O debate mostra que o Caminho Verde Brasil pode representar uma virada de chave para produtividade e metas climáticas, desde que ajuste definições, garanta apoio aos pequenos e valide o sequestro de carbono. Para acompanhar outras iniciativas que ligam rentabilidade e sustentabilidade no campo, visite nossa editoria de economia agrícola digital.
Crédito da imagem: Agfeed Fonte: Agfeed
