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Café na Prensa: Enquanto Brasil discute escala 6×1, trabalhador colhe café 90 h por semana em MG

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Trabalho forçado no café voltou ao centro do debate após um relatório internacional detalhar jornadas de até 91 horas semanais e dívidas automáticas impostas a colhedores em Minas Gerais, maior polo cafeeiro do país. A denúncia coloca pressão sobre produtores, exportadores e compradores globais, justamente quando o Congresso discute mudanças na escala 6×1.

Relatório descreve jornada exaustiva e dívida antes da primeira saca

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O estudo “Forced Labour Risks in Brazil’s Coffee Supply Chains”, elaborado pela KnowTheChain em parceria com a Adere-MG, ouviu 24 trabalhadores que atuaram na safra de 2025 em fazendas já fiscalizadas por violações. Segundo o documento, as semanas produtivas variaram de 59 h a 91 h, com inícios às 5h30 e término após o anoitecer. Como o pagamento é por produção, parar para almoçar significa perder renda; muitos comem em pé e retornam imediatamente às fileiras de café.

A dívida se instala ainda na chegada: equipamentos de colheita, colchão, gás e até a comida comprada fiado no armazém indicado pelo empregador são descontados do contracheque. Casas improvisadas abrigam até 28 pessoas com um único banheiro, cenário que o artigo 149 do Código Penal classifica como condição análoga à escravidão.

Pagamento por produtividade transfere todo o risco ao colhedor

O mecanismo lembra o colonato do século 19. A promessa de rendimento rápido em poucos meses atrai migrantes de outros estados, mas a baixa produção de alguns cafezais reduz o ganho real. Sem salário fixo, o trabalhador assume o risco climático e agronômico: se chove ou a safra decepciona, a renda despenca, mas as dívidas permanecem.

Para David Lucena, analista que acompanha cadeias globais de suprimento, esse modelo mina a previsibilidade de receita do produtor familiar, fragiliza a imagem do café brasileiro e cria barreiras comerciais. Já existem processos na justiça norte-americana, inclusive contra a Starbucks, e pedidos de bloqueio de importação apresentados ao US Customs and Border Protection.

Pressão externa cresce e pode afetar exportações de grandes marcas

A Europa e os Estados Unidos avançam em leis que responsabilizam empresas por violações trabalhistas em suas cadeias. Na Alemanha, que acaba de adotar normas rígidas de due diligence, organizações entraram com queixas contra marcas que compram grãos do Brasil. Se o veto ao produto for confirmado, cooperativas e torrefadores locais terão de comprovar conformidade ou buscar origens alternativas, elevando custo e complexidade logística.

O Ministério do Trabalho classifica a prática de jornada exaustiva como trabalho escravo contemporâneo e mantém grupos móveis de fiscalização. Mais detalhes sobre o combate oficial a essas violações podem ser consultados no portal do governo federal (gov.br/trabalho-escravo).

Produtores de Minas alegam fiscalização rigorosa e repudiam generalizações

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Em nota, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) afirmou que “o Brasil possui um dos sistemas de fiscalização rural mais atuantes do mundo” e que “eventuais irregularidades são identificadas e punidas”. A entidade, signatária do Pacto pela Adoção de Boas Práticas Trabalhistas na Cafeicultura, destaca que a maior parte dos produtores é formada por pequenos e médios agricultores que cumprem a legislação.

A Faemg também promove capacitações sobre segurança e normas trabalhistas, mas reconhece que casos isolados afetam a reputação de todo o setor, responsável por mais de 35 % do café exportado globalmente.

O debate sobre jornada e endividamento expõe um ponto crítico da competitividade do café brasileiro: sem condições dignas, o ganho de produtividade vira risco reputacional. Para acompanhar outras pautas que impactam a cadeia do agronegócio brasileiro, visite a nossa página principal.

Crédito da imagem: Folha de S.Paulo Fonte: Folha de S.Paulo

Francisco devruk

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