Cannabis medicinal: maior fazenda do país dobra produção de CBD
Cannabis medicinal ganha uma nova escala no Brasil com a operação da Abrace, associação paraibana que acaba de centralizar o cultivo em um terreno de 17 ha em Conde (PB) e promete dobrar a produção anual de flores secas, principal matéria-prima do óleo de canabidiol (CBD) que chega a 60 mil pacientes em todo o país.
Do experimento caseiro à maior plantação legal do Brasil
A história começou em 2013, quando Cassiano Gomes testou, na cozinha de casa, um extrato de cannabis para aliviar as dores da mãe. A eficácia do preparo caseiro espalhou-se entre famílias que dependiam de produtos importados e caros. Dois anos depois, com o dólar em alta, a urgência dos pacientes levou Gomes a estruturar a Abrace – Associação Brasileira de Apoio à Cannabis Esperança. Em 2017, a Justiça paraibana concedeu à entidade a primeira autorização de cultivo medicinal do país.
Desde então o projeto ganhou escala industrial: laboratório próprio em João Pessoa, 100 funcionários, museu temático e, agora, a maior área licenciada para cultivo. A mudança para Conde foi motivada por segurança – a unidade anterior, em Campina Grande, sofreu sete assaltos – e por ganhos agronômicos, como solo mais fértil, maior insolação e acesso a água de rio e poço artesiano.
Meta de 5 t de flores secas e redução de custos ao paciente
Em Campina Grande, a Abrace colhia 2,5 t/ano de flores. No novo sítio, apenas 7 dos 17 ha serão plantados, mas a infraestrutura robusta – estufas, cercas elétricas, guaritas e rastreamento – permite ampliar o número de “madres”, plantas-mãe importadas de EUA e Canadá, de 150 para 300. Cada madre gera até 15 clones, renovados a cada 15 dias. Com mais biomassa e melhores condições ambientais, a equipe técnica prevê alcançar 5 t/ano, suficiente para estabilizar preços muito abaixo dos praticados no mercado internacional.
A operação segue um protocolo rigoroso de qualidade: adubação verde, compostagem, rotação de culturas e manejo integrado para conter pragas como o fungo Fusarium. Podas estratégicas – de formação, limpeza e fitossanitária – garantem arquitetura eficiente e mantêm o teor de THC abaixo de 0,3 %, exigência da Anvisa para produtos medicinais.
Regulação avança e reforça confiança no cultivo legal
Em janeiro, a agência federal aprovou a produção, industrialização e comercialização de cannabis para fins exclusivamente médicos, validando o modelo das cerca de 500 decisões judiciais que já liberavam cultivos associativos. Para Gomes, o reconhecimento oficial “tira a atividade da zona cinzenta” e fortalece o acesso a tratamentos para ansiedade, dor crônica, epilepsia e distúrbios do sono.
O impacto prático é imediato: com produção nacional regulamentada, cadeias de distribuição tornam-se mais curtas, os custos logísticos caem e a dependência de importações diminui. Produtores rurais e empreendedores do agro enxergam um nicho em expansão que exige padrões semelhantes aos de qualquer cultura de alto valor, mas com protocolos de segurança redobrados.
O que muda para o produtor e para o paciente
Para pacientes, a oferta interna reduz preços e espera por liberação alfandegária. Para agricultores interessados, o recado é claro: a atividade demanda investimento em estufas, vigilância armada, rastreabilidade e pessoal treinado. Em troca, entrega margens superiores às de muitas culturas tradicionais, com contrato pré-definido e demanda crescente.
Avanços como o da Abrace mostram que a cadeia de cannabis medicinal pode se consolidar como novo segmento agrícola de alto valor no país. Acompanhe aqui outras tendências que estão redesenhando o futuro do agronegócio brasileiro.
Crédito da imagem: Globorural.globo Fonte: Globorural.globo
