Bloqueio no Estreito de Ormuz retém 780 mil t de fertilizantes
Bloqueio no Estreito de Ormuz mantém cerca de 782 mil toneladas de fertilizantes paradas em 20 navios, encarece seguro marítimo em até dez vezes e ameaça pressionar o custo de produção das próximas safras brasileiras.
Rota estrangulada, preços em alerta
Responsável por escoar boa parte do petróleo e dos insumos agrícolas do Oriente Médio, o Estreito de Ormuz virou ponto de tensão estratégica após o Irã restringir a passagem de embarcações ligadas a Estados Unidos e aliados. De acordo com Egon Tales, gerente de operações da Aphamar, a fila atual soma ureia, fosfato, potássio e enxofre – nutrientes cruciais para a adubação de soja, milho, cana e algodão no Brasil.
O gargalo ocorre porque os navios precisam atravessar um corredor marítimo estreito, monitorado por radares costeiros, drones e patrulha naval iraniana. “A capacidade de detecção e coerção é muito alta, o que eleva o risco operacional”, explica o especialista. Parte das embarcações ainda navega com o sistema de identificação desligado, o que pode significar um volume real superior ao estimado.
Com menos oferta imediata, traders relatam prêmios adicionais sobre lotes de fertilizantes e redesenham compras de curto prazo. Segundo a FAO, oscilações desse tipo tendem a se refletir rapidamente na formação de preço dos alimentos.
Brasil aposta em desvio pela Turquia, mas custo dispara
Para reduzir a dependência da região, o Ministério da Agricultura e Pecuária firmou acordo que permite usar portos turcos como hub logístico. O caminho alternativo combina transporte marítimo pelo Atlântico, passagem pelo Estreito de Gibraltar, travessia do Mediterrâneo e, por fim, distribuição terrestre ou ferroviária até os países do Golfo.
Embora viável, a manobra encarece a operação. O analista Miguel Daoud calcula que o seguro marítimo no novo trajeto subiu cerca de 1.000%, enquanto o custo total pode avançar até 300% se considerados frete e manuseio adicional. Na prática, isso significa impacto direto no bolso do produtor brasileiro já na próxima janela de compra de insumos para a safra 2024/25.
A demanda, porém, segue firme. Países árabes importam até 90% dos alimentos que consomem e precisam manter o fluxo de grãos e proteínas. A Turquia, além de atender exigências sanitárias e halal, oferece infraestrutura para refrigeração e estocagem temporária, fator que sustenta a decisão do governo brasileiro.
O que observar nas próximas semanas
• Tendência de preços: indústrias e cooperativas devem monitorar prêmios sobre ureia, fosfatados e potássicos nos portos brasileiros.
• Seguro e frete: contratos fechados antes da escalada podem garantir economia relevante; novos embarques exigem margem extra no planejamento.
• Calendário de compra: antecipar negociações pode ser estratégico caso o bloqueio persista.
• Logística interna: atrasos na liberação de cargas podem concentrar desembarques e pressionar armazéns no segundo semestre.
O detalhe que mais chama atenção é que o Irã usa o mesmo corredor para exportar seus próprios fertilizantes. Qualquer escalada militar ou nova sanção pode reduzir ainda mais a oferta mundial, prolongando o cenário de incerteza.
Para produtores e gestores, a lição imediata é reforçar a análise de risco logístico e diversificar origens de adubo sempre que possível. Acompanhe nossos conteúdos sobre custos de produção para entender como mitigar impactos na rentabilidade da lavoura.
Crédito da imagem: Canalrural Fonte: Canalrural
